É como se a vida toda fosse o Castelo dos Espelhos. As impressões sobre o mesmo objeto mudam daqui prali, com mais luz ou menos. Crescem de maneira desproporcional e assustadora, tomam forma de monstros quando não passam de galhos batendo à sua janela com o vento.
As impressões se transformam periodicamente. Elas não têm data para mudar de cor, mas o fazem, sim, senhora.
Se me falam sobre um local que não conheço, que nunca vi, coloco-me a imaginar canto por canto. Imagino como é a cozinha da casa da frente, como terá ficado depois que o novo vizinho chegou com seus móveis e rancores. E se depois de algum tempo conheço o espaço, lá se vai todo o projeto pensado, sem nenhum tipo de consideração com o trabalho que deu imaginar lado a lado.
A ideia que faço das pessoas quando as encontro pela primeira vez invariavelmente se desfaz, bastando uma xícara de chocolate e boa conversa. Não é raro defini-las, em minha cabeça, com adjetivos bons ou ruins. Expectativas e até julgamentos, por pior que seja admitir. Como um desenho feito com carvão, rascunho a imagem que tenho sobre cada um à minha volta. E crio um painel imaginário com rostos e jeitos, características que coloco porque eu, mesmo que sozinha, acho que ali existam. Dali a pouco tempo vem a pessoa, se aproxima e lá vou eu, ter de apagar um pedacinho do desenho e reconstruir. Opa, não era assim, o tom é mais vinho do que vermelho. Acabo dividindo pessoas em compartimentos, gavetas com determinado conteúdo. Justo, claro, não é.
Talvez seja necessário olhar dessa forma para enxergar reflexos do que gosto e não gosto, do que rejeito nos outros e evito em mim. Tenho centenas de post-its colados no mural imaginário. “Vitimização: não”; “tolerância:sim”, “vida saudável: em busca”. Por procurar reflexos e comparações é que gosto muito de viver no meio de gente, muita gente. É odioso acordar às sete da manhã, sair pra caminhar e encontrar três gatos pingados subindo a rua. Tudo bem - é domingo, mas e aí, onde a vida se esconde? Gosto do ritmo rápido das metrópoles, ainda que com todos os problemas. Há sempre o ir e vir, espaços preenchidos, necessidade de dar o passo para empurrar a vida. Por aqui, cidade pequena (ainda que digam ser ‘média’), durmo mais. Não há atração, sentido, vários sentidos ao mesmo tempo, e sim só uma direção. A ida e a volta são pela mesma via. Sem pista de escape.
Como toda impressão, essa também é mutável. É igual viver dez anos no mesmo local e depois trocá-lo por outro, distante. Quando se volta, não é o local de antes que permanece o mesmo, mas a gente que mudou de forma significativa. Tive algumas experiências assim. Voltar depois de anos. Olha, ainda tem cacos de vidros no muro daquela casa. E ali do outro lado, dona Nice continua a cuidar dos seus dezesseis gatos. A rua parece tão pequena! Como eu corria tanto em tão pouco espaço? E ainda parecia haver um horizonte inteiro a se desvendar! O espaço acaba sendo, na impressão atual, pequeno. Ou é a gente que cresce tanto tanto a ponto de só caber, agora, nesse lugar daqui. Até crescer, crescer...